Dançar x Executar

jul 2 '09

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Dançar x Executar

Sempre gostei muito de observar. Principalmente pessoas. Nos bailes então, costumo dedicar boa parte do meu tempo a esse prazer quase “voyeur”, de observar casais entrelaçados na pista de dança. E esse hábito tem me revelado aspectos muito interessantes desse jogo chamado dançar.

Quando vejo um casal que me agrada, procuro sempre descobrir, detalhar, o quê exatamente, dentre as tantas características de uma dança, me chama a atenção ou me encanta. Às vezes um olhar, às vezes uma forma de sorrir ou de executar os movimentos, de se expressar através de uma música, de se envolver com ela e principalmente com o parceiro. A mesma coisa quando uma casal não me agrada: procuro notar onde está a desarmonia ou fator que me incomoda. É claro que essas observações levam em conta critérios particulares de gosto, estética e referência, que certamente não são compartilhados por todos, mas alguns pontos, que julgo muito importantes, são, e parecem ser cada vez mais, consenso entre os que se dispõem a discutir as formas, técnicas, estéticas e estilos de se dançar. E é sobre esses que eu gostaria de focar a atenção.

Notadamente alguns casais quando vão para a pista de dança já têm na cabeça as seqüências de passos a serem executadas. Pode ser a da última aula (se forem alunos), a que foi vista em um outro casal, em algum vídeo, a preferida de sempre ou até mesmo a única que se sabe (ou se lembra). Vejo casais, muitas vezes com uma coreografia inteira pré-determinada. E o que é pior: INDEPENDENTE da música que esteja tocando.

Não sou do tipo que faz apologia ao virtuosismo ou à técnica excepcional como condição necessária para se definir um bom dançarino. Nem ao repertório numeroso de passos e figuras. Sempre me agradou muito mais um casal harmonioso, envolvido com a música e um com o outro, procurando expressar sentimentos através de movimentos simples, do que outros, ocupados em vomitar passos, giros e figuras, na maior quantidade possível, dentro do menor tempo, usando a música quase que como um pretexto para seu exibicionismo.

Defendo a evolução e o aprimoramento técnico, claro. E gosto dele. Acho fantástica a capacidade de se aprimorar, de se superar. Mas a técnica, a meu ver, deve ser uma ferramenta a serviço de um sentimento, de uma necessidade de expressão. Um dos aspectos que considero válidos para se definir um bom dançarino, ou dançarina, é a capacidade técnica de domínio sobre o corpo e seus movimentos. Ter controle sobre ele para poder utilizá-lo plenamente e dentro de padrões estabelecidos de uma dança, a serviço dos sentimentos gerados por ela. Quando apenas reproduzimos movimentos, sem sentimentos, estamos apenas “executando passos”. Ou em muitos casos “executando” (matando) uma dança.

Costumo usar muitos exemplos da minha experiência como músico para entender e explicar aspectos da dança. Vou usar mais um.

Um dos gêneros de instrumentistas que sempre me chamaram especial atenção por sua qualidade artística e capacidade de expressão musical e que, a meu ver, estão entre os que melhor empregam a capacidade técnica e o domínio sobre o instrumento, são os músicos de Blues. Quem nunca parou para prestar atenção, que o faça. É impressionante como o sentimento sempre vem primeiro, na frente, ao tocar. E a técnica a serviço deste. Ora com frases melódicas rápidas e viscerais, ora com frases simples ou mesmo uma única nota sustentando um ou mais compassos. Tudo dependendo do momento, do clima, do sentimento do músico e do que se quer expressar.

Poderia aqui escrever parágrafos e mais parágrafos sobre as várias opiniões, minhas e de outros, sobre as diferenças entre dançar x executar passos. Mas vou ficar apenas na que julgo a mais importante: a dança tem que ter vida. Composta de elementos como a música (o principal!), o parceiro, os movimentos, o ambiente, o momento e vários outros, a dança tem que ser uma experiência única. Cada dança uma dança, cada dança uma história. Esta é a verdadeira riqueza.

Quem não entender isso, vai perder a grande chance de vivenciar e colecionar uma infinidade de histórias, lindas, apaixonadas, divertidas, engraçadas, tristes, dramáticas, enigmáticas, confusas, alucinadas, sofisticadas, simples… E terminar, como dançarino, como aqueles pobres atores de um papel só. Como cantores de uma única música.

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