O Desafio

jan 5 '10

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O Desafio

Tenho acompanhado bem de perto, nos últimos anos, o crescimento do interesse pela salsa no Brasil. É inegável que desde 2001, acompanhando uma tendência mundial, esse interesse, assim como o número de praticantes e aficionados em geral, vem aumentando consideravelmente a ponto de termos hoje um grande número professores, escolas, grupos de dança, grupos musicais, DJs e alunos de salsa. E mais ainda, termos um dos maiores eventos internacionais de salsa, anualmente em nosso país (Congresso mundial de Salsa do Brasil).Dentre todas as danças de salão ou da danças de par (termo que prefiro), a salsa é, de longe, a que mais vem atraindo novos adeptos em nossos salões e academias, assim como importante espaço nas casas noturnas. Sem falar no interesse da mídia em geral que tem crescido exponencialmente. Seria esse então um cenário digno de puro otimismo? Penso que (ainda) não.

Temos, sim, um cenário e um momento bastante favoráveis. Mas daí a crer que e a salsa irá se popularizar facilmente entre os nossos dançarinos e o nosso público, há uma grande distância.

Ao mesmo tempo em que vemos aumentar a programação de salsa e o espaço dedicado a ela em muitos segmentos da chamada indústria do lazer (bares, restaurantes, casas noturnas, escolas de dança), vemos também surgir, não raro, a frustração e o desapontamento. Sobretudo dos que investiram tempo, esforço e principalmente dinheiro na esperança de que essa nova “onda” se concretizasse e se tornasse também um sucesso entre o grande público.

E qual a conseqüência natural dessa frustração? A descrença e o desinteresse. Mutas vezes vemos casas noturnas cancelarem as noites de salsa, por prejuízo, bandas tocando para mesas e cadeiras e DJs tocando para moscas. Cada vez que isso acontece, é uma grande chance desperdiçada, uma oportunidade escorrida entre os dedos, de levar esse ritmo ao mesmo tempo tão fascinante, rico e obscuro, a uma maioria que ainda o desconhece.

Vivemos atualmente no Brasil um momento interessante e delicado: nunca tivemos (nós, os salseros) tanta visibilidade e exposição. Nunca o interesse foi tão amplo e a curiosidade de alguns, junto à predisposição de outros, foi tanta. Em contrapartida, nunca o risco foi tão grande. Porque se não soubermos aproveitar esse momento e esse interesse, vai ser muito difícil despertá-lo novamente.

Vejo dois caminhos possíveis para isso acontecer: pelas mãos da grande mídia, através do interesse dos grandes empresários, gravadoras, emissoras de televisão ou pela vontade e esforço quase “operário” dos aficionados, profissionais ou não, que estão diretamente envolvidos com o movimento salsero no país. Pessoalmente prefiro, de longe, o segundo, sem dezprezar, claro, a força e a importância do primeiro.

Embora mídia tenha um papel fundamental na expansão da salsa pelo mundo, (um grande exemplo é o filme “Dance With Me” – em português “No Ritmos da Dança”, cuja produção foi cuidadosa em mostrar a salsa de verdade, com salseros de verdade e do naipe de Luis e Joby Vazquez, Janet Valenzuela, Rogelio Moreno, Albert Torres, além de músicos como Ricardo Lemvro, Albita, DLG, entre outros), a experiência que temos em nosso país, quando a mesma mídia resolve investir pesado, não tem sido das melhores, até agora

Resta então o segundo caminho: muito mais árduo, mais longo e difícil, porém verdadeiro. O caminho feito de grão em grão, de passo em passo, por aqueles que têm nas mãos (ou seria nos pés?) com bem menos poder, porém muito mais qualidade, a capacidade de alterar o rumo das coisas, de fazer acontecer, de escrever história.

Esse é o nosso grande desafio: traçar esse caminho. Entender as dificuldades inerentes a ele, a necessidade de juntar forças, ter sabedoria e maturidade suficientes para colocar, acima de interesses pessoais, o interesse por essa paixão em comum. Para que ela aconteça. Para que a salsa saia dos guetos, dos becos e deixe de ser a desconhecida, a amante clandestina, a “puta de bordel”. Para que ela possa ser apresentada à sociedade, ser aceita, respeitada e possamos passear com ela, namorar com ela, encontrar com ela em todas as ruas, em todas as casas.

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